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Biografias externas

"Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestiniano em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, rockero na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México." Enfim, Marcos é um ser humano qualquer neste mundo. Marcos é todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, exploradas, dizendo ¡Ya basta! Todas as minorias na hora de falar e maiorias na hora de se calar e agüentar. Todos os intolerados buscando uma palavra, sua palavra. Tudo que incomoda o poder e as boas consciências, este é Marcos.", Subcomandante Marcos, 28 de Março de 1994

Aqui tão perto, o revolucionário que combateu todos os totalitarismos, conheça Buenaventura Durruti.

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De sementeiras e de colheitas

Há dois dias, no mesmo dia em que discutíamos sobre violência, a inefável Condoleezza Rice, representante dos EUA, declarava que o que está a acontecer em Gaza é culpa dos palestinianos, devido à sua natureza violenta.

Os rios subterrâneos que percorrem o mundo bem podiam mudar a sua geografia, a lengalenga seria a mesma.

E a (lengalenga) que ouvimos agora é uma de guerra e dor.

Não muito longe daqui, num local chamado Gaza, na Palestina, no Médio Oriente, mesmo aqui ao lado, os militares bem treinados e fortemente armados do governo israelita continuam a sua marcha de morte e destruição.

Os passos que tem levado a cabo são os de uma guerra clássica de conquista militar: primeiro o bombardeamento intensivo com o propósito de destruir alvos militares “estratégicos” (assim nos indicam os manuais militares) e a “amolecer” o esforço de resistência; de seguida um controlo de ferro sobre a informação: isto é, tudo aquilo que é ouvido no “mundo exterior”, ou seja, fora do campo das operações, deve ser seleccionado de acordo com critérios militares; agora o fogo intenso contra a infantaria inimiga de modo a proteger o avanço das tropas enquanto ocupam novas posições; depois o cerco para enfraquecer o aquartelamento inimigo; depois o assalto que conquistará e aniquilará o inimigo, por fim a “limpeza” dos “nichos de resistência” prováveis.

O manual militar da guerra moderna, com algumas variações e acrescentos, está a ser seguido ponto a ponto pelas forças militares invasoras.

Não sabemos muito sobre isto, e certamente existem por aí especialistas no chamado “conflito do Médio Oriente”, mas deste canto do mundo temos algo a dizer:

De acordo com as imagens noticiosas, os alvos “estratégicos” destruídos pela força aérea do governo israelita são casas, barracas e edifícios civis. Não vimos um único bunker, nem quartel, nem aeroporto militar, nem sequer canhões entre os escombros. Portanto – e perdoem-nos a ignorância – julgamos que ou os artilheiros dos aviões têm má pontaria, ou em Gaza esses alvos militares “estratégicos” não existem.

Nunca tivemos a honra de visitar a Palestina, mas supomos que as pessoas, homens, mulheres, crianças e idosos – não os soldados – viviam nestas casas, barracas e edifícios.

Também não vimos os reforços da resistência, apenas cascalho.

Temos visto, contudo, os esforços fúteis do cerco informativo e os governos mundiais que tentam decidir-se entre o aplauso da invasão e a ignorância, e a ONU, que há já algum tempo se tornou inútil, a enviar comunicados de imprensa tépidos.

Mas esperem. Acabou de nos ocorrer que talvez para o governo israelita estes homens, mulheres, crianças e idosos sejam soldados inimigos, e como tal, as barracas, casas e edifícios que habitam são quartéis que precisam de ser destruídos.

Então com certeza a salva de balas que caiu sobre Gaza esta manhã foi para proteger a infantaria israelita do avanço destes homens, mulheres, crianças e idosos.

E guarnição inimiga que querem enfraquecer com o cerco que se espalha por toda a Gaza é a população palestiniana que vive lá. E o assalto tentará aniquilar essa população. E quaisquer homens, mulheres, crianças e idosos que consigam escapar ou esconder-se deste previsivelmente sangrento assalto será posteriormente “caçado” de modo a que a limpeza seja completa e os comandantes no comando da operação possam comunicar aos seus superiores: “Completamos a nossa missão.”

Novamente, perdoem a nossa ignorância, se calhar as nossas afirmações não têm sentido. E em vez de condenarmos o crime em curso, sendo os indígenas e os guerreiros que somos, devêssemos estar a discutir e a tomar decisões na discussão sobre se isto é “sionismo” ou “antisemitismo” ou se foram as bombas do Hamas que começaram isto.

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Talvez o nosso raciocínio seja muito simplório e nos faltem as nuances e os pormenores que são sempre necessários às análises, mas para os zapatistas dá a impressão de que um exército profissional está a assassinar uma população indefesa.

Quem, de baixo e à esquerda, pode permanecer calado?

Será útil dizer algo? Os nossos apelos param sequer uma bomba? As nossas palavras salvam a vida sequer de um só palestiniano?

Acreditamos que sim, é útil. Talvez não consigamos parar uma bomba e as nossas palavras não se transformem num escudo de modo a que as balas de calibre 5.56mm ou 9mm com a inscrição “IMI” ou “Indústria Militar Israelita” gravada na base dos cartuchos não atinja o peito de uma menina ou de um menino, mas talvez as nossas palavras consigam unir as forças com outras no México e no mundo e talvez primeiro se ouça um murmúrio, depois em bom tom e por fim um grito que possam ouvir em Gaza.

Não sabemos no que lhe diz respeito, mas nós zapatistas do EZLN, nós sabemos quão importante é, no meio da destruição e da morte, ouvir algumas palavras de encorajamento.

Não sei explicá-lo, mas acontece que sim, as palavras vindas de longe podem não parar uma bomba, mas é como se abríssemos uma racha numa sala escura de morte e por essa pequena racha entrasse um raio de luz.

Quanto ao resto, o que será será. O governo israelita irá declarar que infligiu um grande golpe ao terrorismo, esconderá a magnitude do massacre do seu próprio povo, os grande produtores de armamento irão obter o apoio económico necessário para enfrentar a crise e a “opinião pública global”, essa entidade maleável que está sempre na moda, olhará para outro lado.

Mas não é tudo. O povo palestiniano irá também resistir e sobreviver e continuar a combater e continuará a ter simpatia dos de baixo pela sua causa.

E talvez um menino ou uma menina de Gaza sobreviva, também. Talvez cresça e, com ele, também os seus nervos, a sua indignação e a sua raiva. Talvez se torne num soldado ou num miliciano de um dos grupos que combatem na Palestina. Talvez um dia se encontre em combate com Israel.

Talvez o faça disparando uma arma. Talvez se sacrifique com um cinto de dinamite na cintura.

E depois, de cima, irão escrever acerca da natureza violenta dos palestinianos e farão declarações a condenar essa violência e voltam a discutir se é sionismo ou antisemitismo.

E ninguém questionará sobre quem plantou o que agora se colhe.

Para os homens, mulheres, crianças e idosos do Exército Zapatista de Libertação Nacional.

 

Subcomandante Insurgente Marcos
México, 4 de Janeiro de 2009

 

 

 

 

este comunicado foi também postado no Centro de Mídia Independente